Capítulo IV

Recomendações práticas

Registámos nos capítulos anteriores a voz de cidadãos, especialistas e organizações da sociedade civil identificando diversos problemas que afetam mobilidade a pé nas cidades, particularmente a de mulheres, e que podem ser agrupados em duas grandes categorias:

A. Tornar as cidades mais acessíveis e convidativas para todas as pessoas e não apenas para alguns – Precisamos de cidades inclusivas;

B. Falta de tempo e distância em relação a locais qualificados para andar a pé – Precisamos de criar dinâmicas de híper-proximidade.

A. Tornar as cidades mais Inclusivas

1. Uma cidade para todos e todas

Ao longo de décadas sucessivas a ideia de cidade tem tido construção masculina: o planeamento urbano na generalidade das cidades europeias tomou como prioridade as atividades produtivas e os padrões de mobilidade dos proprietários de automóveis, sistematicamente muito mais homens do que mulheres. Os arquitetos, os responsáveis pelo planeamento e os decisores políticos locais foram, por muito tempo, quase exclusivamente homens. Assim cresceu a cidade masculina, determinada por uma cultura tipicamente não equitativa, com alguma exceção nos países nórdicos.  Assim, não surpreende que até muito recentemente os principais tópicos de pesquisa sobre mobilidade urbana se tenham concentrado nas questões ligadas à deslocação de e para o trabalho e na facilitação da produtividade.

Assim, os padrões de mobilidade relacionados com atividade não produtiva, tal como cuidar dos filhos e familiares idosos, foram, ao longo de gerações, negligenciados pelo planeamento urbano. E, portanto, não aparecem na estatística europeia dados históricos suficientes, nem sobre a mobilidade não produtiva, nem sobre a mobilidade associada a atividades de cuidado ou aquela que se relaciona com o lazer. Tradicionalmente, os papéis nas atividades de cuidado são atribuídos em primeira e dominante linha às mulheres, no entanto submetidas a um sistema de mobilidade com marca masculina. Mais recentemente, a agenda de igualdade de género está a lançar luz sobre aquelas mulheres antes como que “invisíveis”, cuja mobilidade urbana nem sequer tinha sido incluídas nas estatísticas de dados de qualidade.

Há que ter em conta essa falta de estatísticas sólidas sobre os padrões de mobilidade das mulheres no planeamento de cidades e bairros melhores.

2. Adotar uma visão ampla sobre a inclusão

O guia Inclusive Healthy Places, produzido pelo Gehl Institute, orientado para projetar cidades com vida saudável, fornece um modelo prático especialmente útil para incluir em todas as fases do desenho urbano as ligações entre o design do espaço público e questões de inclusão. Este guia foi concebido como uma ferramenta flexível para ser adaptada a diferentes situações. A abordagem tem foco que vais mais além do que a perspetiva de género e, como tal, é útil para cruzar variáveis. O ‘Framework’ inclui uma lista de drivers, indicadores e métricas.

A ferramenta Estrutura para Inclusão destaca as interseções entre especificidades dos espaços públicos e os processos associados relevantes, tal como as principais determinantes sociais da saúde e do bem-estar.

Esta ferramenta está organizada em quatro seçcões:

Contexto: uma ampla lista de pré-condições e de dados de base local, incluindo dados demográficos, recursos públicos utilizáveis, condições ambientais locais relacionadas com o espaço público e factores de alerta para riscos de exclusão

Processo: lista de indicadores sobre a relação das pessoas com a comunidade, tal como confiança e participação cívica, envolvimento em processos participativos, gestão local, redes sociais e ações coletivas. Todos esses fatores são relevantes na conceção de processos participativos ou colaborativos voltados para a comunidade local. Entendê-los o ajuda a projetar melhor a motivação da comunidade.

Design e o Programa: uma bem organizada exaustiva lista de tópicos sobre características físicas e o design de lugares a serem levados em consideração ao projetar cidades estimulantes para caminhar. A mobilidade é, obviamente, um dos tópicos principais incluídos nesta seção da Estrutura para Inclusão. Outros tópicos relevantes são a presença da natureza, a qualidade da experiência, os equipamentos para prática de atividade física, a possibilidade de uso flexível do espaço, o nível de segurança percecionada, o equipamento de mobiliário urbano, o nível de manutenção e o potencial para convidar a voltar.

Sustentabilidade: esta seção ajuda a planear a sustentabilidade e resiliência de novas medidas e intervenções. Alguns itens possivelmente úteis a serem considerados incluem a estabilidade da comunidade, a coesão social, a gestão/governança, o investimento contínuo na comunidade e vizinhança e a capacidade de avaliação contínua.

3. Generalização da perspetiva de género

Considerada a complexidade dos fatores que afetam a igualdade de género no espaço público, bem como a diversidade de drivers que podem ser ativados para melhorar a qualidade dos lugares e  a sua atractividade para a prática de andar a pé, pode-se facilmente antecipar que muitos obstáculos podem surgir em qualquer fase dessa intervenção sobre o design do espaço público.

A integração de igualdade de género, ou seja, a inclusão de uma perspetiva de género em todas as áreas políticas de planeamento da intervenção, reforce-se que em todos os níveis e em todas as fases dessa formulação de políticas, é a chave para transformar a mobilidade das cidades e bairros em relação ao género.

A experiência que está a ser adquirida mostra ser esta melhor via para definir uma mentalidade transformadora positiva rumo a mais igualdade de género.

Por demasiado tempo, o desenho urbano dominado pela influência do género masculino não levou em consideração os obstáculos que as mulheres encontram na sua mobilidade.

Mais recentemente, várias cidades europeias começaram a integrar políticas de género, e para isso criaram departamentos dedicados à igualdade entre mulheres e homens. Ao mesmo tempo evoluíram para uma distribuição mais equitativa de género de cargos em cargos de tomada de decisão estratégica nas estruturas da governanção urbana. Esta opção impulsiona a diferença positiva, ao promover as mudanças de forma sistémica.

4.1. Envolver todos: soluções de co-criação

  • Ao caminhar regularmente numa mesma área, as pessoas ficam naturalmente cientes dos problemas que podem fazer claudicar a vontade de caminhar por esses lugares. Essa constatação está relacionada com a forma de uso do território por cada pessoa, bem como condicionantes individuais e socioeconómicas. Quaisquer que sejam, é alta a probabilidade de que as pessoas já tenham detetado os problemas no cenário urbano que são obstáculos relevantes à mobilidade nessa área.

Assim, considere as pessoas locais como especialistas nessa área que é delas; portanto, envolva-as em processos participativos para melhorar a mobilidade local e da cidade.

4.2. Caminhar com os utilizadores – como proceder?

 

Importa explorar e envolver a diversidade. Temos representados todos os grupos de pessoas da comunidade? Pode ser preciso participar em mais de uma caminhada para acomodar essa diversidade de participação, de modo a que – é essencial – ninguém fique de fora.

Recomenda-se convidar pessoas das diferentes faixas etárias, dos diferentes grupos étnicos, de toda a condição socioeconómica, também pessoas que se identificam com várias identidades de género. Juntar todos. Incluir todos. Vai compensar o esforço.

Claro que todos os peritos da transformação ambicionada da cidade ou do bairro, designadamente arquitetos e outros técnicos envolvidos no processo, também devem participar.

O papel do mediador nesta intervenção é o de construir pontes para soluções, cruzando as ideias e os problemas que as pessoas identificam e a noção que é possível ter sobre a viabilidade das respostas por parte dos responsáveis pela intervenção;

Os políticos locais ou outros decisores relevantes; também devem participar; o ideal é que participem mais como pessoas comuns do que como membros do poder público. Afinal, eles também são pessoas e aquele também é o território. Essa proximidade é positiva para todos. Vai ajudar ao envolvimento de todos na procura de boas medidas.

Pode ser detetada a inibição de algumas pessoas na participação, designadamente numa caminhada com pessoas de outro género. Há que respeitar mas ajudar a superar, se possível.

Para instalar a confiança e a boa participação ativa, em alguns casos pode ser útil começar por organizar caminhadas específicas só com parte da comunidade. Não esquecer que, mesmo assim, será preciso levar em consideração a diversidade intra-género das pessoas, como a variação de idade, as variáveis socioeconómicas, as condições de mobilidade pessoal, etc., etc.

4.3. Envolver criativos no processo

Para obter os melhores resultados, as metodologias de co-criação – a pé ou em estúdio – requerem a mobilização da energia dos participantes e seu total envolvimento. Importa ativar o processo de mentalidade criativa. A maioria das pessoas não está estimulada para se pôr a imaginar grandes soluções, e também muito poucos terão conhecimento técnico sobre planeamento urbano. Ao desdobrar técnicas de reflexão, como as usadas em processos de design thinking, ficam proporcionadas condições para serem encontradas grandes soluções resultantes da criteriosa reflexão em comum.

Pondere convidar pelo menos um criativo, talvez um designer ou alguém das artes performativas que possa ajudar nesse processo de imaginar um bairro/uma cidade diferente ousando explorar conjuntos de soluções para além dos mais óbvios.

4.4. As pessoas conhecem muito bem o seu território e as barreiras que ele lhes apresenta

Ao caminhar regularmente numa mesma área, as pessoas ficam naturalmente cientes dos problemas que podem fazer claudicar a vontade de caminhar por esses lugares. Essa constatação está relacionada com a forma de uso do território por cada pessoa, bem como condicionantes individuais e socioeconómicas. Quaisquer que sejam, é alta a probabilidade de que as pessoas já tenham detetado os problemas no cenário urbano que são obstáculos relevantes à mobilidade nessa área.

  • Assim, considere as pessoas locais como especialistas nessa área que é delas; portanto, envolva-as em processos participativos para melhorar a mobilidade local e da cidade.

4.5. Desenvolva um processo de design thinking

O design thinking é um processo amplamente utilizado para resolver problemas complexos, incluindo os de design urbano. Para aplicar esta técnica tão produtiva, há que juntar um grupo suficientemente alargado de pessoas numa mesma sala, de facto, representantes de todas as partes: membros da comunidade, urbanistas, arquitetos, políticos e outros decisores locais, para além dos criativos convidados a quem cabe animar a reflexão para procura de soluções. Eventualmente, esse processo de design thinking poderá ser desenvolvido em caminhadas dinâmicas em vez de no espaço de uma sala.

Aqui ficam algumas dicas sobre como ativar esse processo de design thinking, praticado em caminhadas dinâmicas, participativas:

Balade Croquis: método descrito por Sónia Lavadinho: leve um caderno de esboços consigo durante a caminhada com o grupo e anote todos os comentários surgidos ao vivo enquanto caminham. Sónia descreve esta técnica como muito produtiva, porque as pessoas conseguem ver no terreno a evolução real do processo no site e assim a participação ativa fica fortalecida.

  • Caminhadas discursivas / narrativas: processo também com a comunidade, com técnicos e decisores conforme o descrito por Filipa Wunderlich.

5. Que as mulheres estejam visíveis no planeamento urbano

Para melhorar a mobilidade nas cidades, consideradas as diferenças de género no uso do espaço público, os planeadores urbanos precisam, como já anotámos, de dar especial atenção às vozes das mulheres. Escutá-las, levando em consideração a sua grande diversidade. Para conseguir alcançar objetivo de igualdade de género na mobilidade, a consciência de género é parte fundamental do processo de desenho urbano. Para concretizar esse objetivo, dar voz às mulheres e envolvê-las ativamente na busca de soluções é a melhor ferramenta operacional.

Isso traduz-se pela identificação e consideração da vontade das mulheres em toda a sua diversidade, envolvendo-as nas intervenções de design urbano. Todo o esforço e recursos possíveis para concretizar essa mobilização.

Dar visibilidade a problemas na deslocação associados a atividades não produtivas. Os percursos pedestres para as escolas do bairro devem ser agradáveis, saudáveis e seguros. As pessoas que vão a pé para a escola, na maior parte dos dias da semana, fazem esse percurso de vai e vem por duas vezes.

Aqui está uma ótima oportunidade para incluir uma muito agradável caminhada na vida diária dessas pessoas, sejam pais, avós, filhos ou outros. É uma intervenção que merece a melhor ação de quem planeia a intervenção sobre o território.

É bom método começar por entrevistar pais, avós e os outros na porta de entrada da escola e, a partir da informação recolhida, tratar de construir um mapa comunitário das principais vias pedestres usadas a caminho da escola.

Outra atividade que as pessoas praticam, classificada como não produtiva, é a das compras diárias, designadamente de alimentos.

Há que dar atenção a possíveis problemas de locomoção que possam afetar algumas pessoas, particularmente idosos ou pessoas com alguma forma de mobilidade reduzida. Importa desenvolver inquéritos locais, envolvendo essas pessoas, para encontrar oportunidades de ultrapassagem da dificuldade.

6. Dar visibilidade às mulheres em condição de vulnerabilidade quando caminham

Mulheres que se deslocam para o trabalho tarde na noite ou de madrugada são particularmente vulneráveis ​​se viajam em transporte público ou se deslocam a pé. Esta é uma questão principal de segurança, que requer atenção das autoridades locais para proteger essas cidadãs.

Para que as autoridades locais tomem conhecimento desses casos, o primeiro passo pode passar por consultar as empresas de transporte público, designadamente aos trabalhadores que operam essas carreiras.

6.1 Dar visibilidade a mulheres jovens e adolescentes

As mulheres mais jovens são particularmente vulneráveis ao dependerem do transporte público a sua mobilidade urbana e, principalmente, quando em saídas à noite, se tornam potenciais alvos de agressões e assédio sexual. Várias cidades já estão a desenvolver programas especiais dedicados à proteção dessa faixa etária à noite. É uma prática a desenvolver:

Um primeiro passo é o de conseguir bom conhecimento e entendimento dos problemas reais relatados. É preciso ouvir as autoridades policiais, visitar e consultar as pessoas dos espaços noturnos e as das empresas de transporte público.

Envolver ativamente neste processo pessoas dessa faixa etária: há que consultar universidades, em especial escolas de arquitetura e urbanismo, bem como de ciências sociais, onde a questão já pode estar a ser estudada com busca de soluções O envolvimento de alunos nesse grupo etário é muito valioso. Capacite-os para essa ajuda sobre os problemas da mobilidade jovem.

6.2. Dar visibilidade a mulheres mais idosas

Esta faixa etária é particularmente difícil de envolver, pois os idosos costumam colocar-se mais reservados ou até isolados da comunidade.

 

Um ponto de partida pode passar por ONG e associações locais que já estão a apoiar esses idosos e, portanto, têm vasta informação útil e rede de contatos locais. Capacite-os para que possam ajudar na identificação e resolução de problemas de mobilidade.

6.3 Dar visibilidade às minorias étnicas

Os grupos minoritários muitas vezes confiam menos nas autoridades públicas e esquivam-se ao envolvimento em projetos participativos, mesmo quando é suposto beneficiarem deles. Pode ser difícil chegar até eles se não tiver laços com o bairro e se não tiver contactos que façam a aproximação, com confiança, a essas comunidades.

O ponto de partida, também aqui, pode passar por ONG e associações locais. Há que entrar em contato com elas e capacitá-las para a ajuda na identificação e resolução dos problemas associados à mobilidade.

7. Envolver organizações não governamentais e grupos informais

Associações e outros grupos com intervenção social e que já estão envolvidos com a comunidade local são muitas vezes a melhor ponte de contacto local e que permite ampliar a participação nas nossas iniciativas. Além disso, estes grupos têm conhecimento sobre as realidades locais e podem ajudar no diagnóstico inicial e desenho de projeto.

Mesmo quando não existam organizações locais dedicadas ao desenho urbano e melhoria da caminhabilidade, na verdade o tema é tão abrangente e tem implicações tão relevantes na vida das pessoas, que muito provavelmente encontrará a sua disponibilidade para ajudar.

B. CRIAR DINÂMICAS DE HÍPER-PROXIMIDADE - CRIAR TEMPO, VENCER DISTÂNCIAS, DESENHAR PARA O QUOTIDIANO

1. Repensar o bairro para o prazer de andar a pé

A pandemia de Covid-19 com os confinamentos que limitaram as pessoas ao espaço em volta de casa dentro do bairro, com permissão de saída por apenas curtos períodos de tempo para compras essenciais, passear com o cão ou praticar alguma atividade física revelou várias realidades antes negligenciadas sobre o espaço urbano e a forma como nos envolvemos com ele. Muitas dessas realidades têm implicações para a mobilidade e, portanto, implicações para o design de cidades saudáveis para andar a pé:

Muitas pessoas, em fase de teletrabalho, descobriram que o bairro onde vivem não tem lojas para todas as necessidades básicas: a ideia moderna de uma cidade de 15 minutos onde as pessoas podem aceder ao básico com uma caminhada de não mais de 15 minutos de casa não corresponde plenamente à realidade. A maioria das pessoas precisará de recorrer a um percurso mais longos para chegar a restaurantes, hipermercado, escola, centro médico e outros serviços. Há que pensar essas ligações e os equipamentos e serviços que facilitam esta visão.

Está constatado que muitos bairros não têm áreas convidativas para caminhadas. Muita gente que, na sequência da pandemia, pensou em começar a praticar caminhadas curtas de lazer à porta de casa, veio a descobrir que isso não é propriamente aprazível: as hipótese de percursos não são confortáveis, o cenário é feio, às vezes revela-se mesmo perigoso para andar a pé, nem chega a proporcionar áreas verdes porque não existem na proximidade, escasseia a sombra de árvores, o espaço para caminhada é insuficiente para manter a distância física recomendada de 2 metros, em suma, não funciona.

Mesmo depois de resolvidas as questões elementares de caminhabilidade – segurança e acessibilidade, muitos bairros precisam de ser melhorados a pensar na mobilidade híper-local relacionada com o lazer e o prazer de andar a pé.

O mesmo é aplicável para pessoas que já praticavam atividade física (caminhadas, corridas ao ar livre, etc.) mas que costumavam escolher áreas especiais de lazer na cidade, como parques verdes e zonas ribeirinhas como cenário para essas atividades: a maioria, agora, no perímetro do bairro em que reside não consegue encontrar áreas verdes ou azuis de qualidade na zona de vizinhança da residência.

Mas também há aqueles que se aventuraram na busca de cenários alternativos ao ar livre e que tiveram a agradável surpresa de encontrar áreas apetecíveis para caminhar ou correr. À medida que mais pessoas passaram a explorar ruas do seu bairro, algumas áreas residenciais passaram a ter mais gente na rua em determinados horários do dia. Além disso, com a satisfação de ver e encontrar vizinhos. Fica mais confortada a vida na comunidade

2. Trazer mais vida para o bairro: placemaking para a caminhabilidade

Placemaking, ou o processo pelo qual o design, as intervenções e dinâmicas sociais urbanas criam identidade, ou caráter, no espaço público, é uma das ferramentas cada vez mais comum para melhorar a interação das pessoas com a cidade.

A forma mais óbvia é pelo placemaking cultural – trazer para a rua, para uma praça, para um parque eventos culturais capazes de ‘dar vida’ aos lugares e que podem mudar o nosso relacionamento afetivo com esses lugares, de forma mais ou menos duradoura.

Placemaking económico pode acontecer numa área, com o investimento em equipamentos comerciais que deem origem a mais vida a pé numa zona.

Podemos ainda falar de placemaking baseado em inovação, que resulta do investimento público, privado ou mesmo da comunidade local em novos usos para o espaço público e que lhe dão carácter e atractibilidade.

Outra forma de tentar facilitar o placemaking num lugar, e a que podemos chamar de placemaking social, faz-se recorrendo à instalação de mobiliário urbano, como bancos de rua, mesas e cadeias, equipamentos para brincar ou para fazer exercício físico, pequenos anfiteatros livres, entre outros. São muitos os exemplos recentes de lugares na cidade onde as pessoas passavam mas não paravam e que se transformaram em agradáveis locais só porque foram criadas condições para isso.    

Quando há circulação diversificada de pessoas, os lugares transformam-se naturalmente em zonas de conforto para andar a pé em segurança.

Naturalmente, o placemaking está muitas vezes associado a áreas de dimensão limitada – uma praça, um parque, uma rua ou conjunto de ruas num bairro.

Contudo, a criação de ‘corredores urbanos’ que convidam ao andar a pé e que fazem uma ponte de ligação entre pontos de interesse na cidade ou funcionam como pontes estratégicas áreas funcionais nas rotinas na cidade, são uma solução que pode facilitar a caminhabilidade para quem não tem tempo ou motivação para caminhar por prazer.

3. Facilitar a transformação: instalar o novo modelo no dia a dia das pessoas

Consideremos os diferentes usos do território para caminhar: caminhada funcional – ou seja, ir para o trabalho, ir à escola, cuidar das atividades de outros, fazer compras diárias, etc., caminhar em modo de lazer – passear, fazer exercício físico, e a caminhada relacional, social, que dá prioridade ao estar com outras pessoas.

Uma cidade saudável e que pode ser percorrida a pé facilita e incentiva a todos os seus cidadãos para que explorem oportunidades de caminhadas agradáveis, fáceis e seguras mesmo durantes os deslocamentos funcionais. Esta é uma visão relativamente nova para as cidades. Veremos, sem dúvida, nos próximos anos inúmeros consistentes e importantes esforços nesse sentido.

Trazer esta visão para a escala do bairro é a melhor forma de vencer o problema de falta de tempo que afeta grande parte da população ativa e em especial mulheres que acumulam funções cuidadoras.

Quando as cidades são atrativas para caminhadas, as pessoas caminham mais. Geralmente, fazem isso juntando um pouco de caminhada à deslocação necessária, reduzindo assim o tempo em transportes públicos ou no automóvel.  Onde é que aqui entra a especificidade de género? Este é um factor a considerar: o que pode parecer um percurso de caminhada atraente para alguns, pode, no entanto, apresentar barreiras para outros, designadamente mulheres. É, frequentemente, por exemplo, o caso de percursos que atravessam uma área verde urbana com um ou mais pontos de baixa visibilidade, que muitas mulheres podem percecionar como zonas de risco.

Há que promover auditorias de segurança em caminhos aparentemente agradáveis ​​para eliminar obstáculos à mobilidade confiante.

4. Tempo para caminhar

Neste manual, pretendemos destacar os fatores de mobilidade que tendem a estar associados às desigualdades de género.

O primeiro e mais destacado é o acesso aos tempos de lazer / recreio para andar a pé.

Múltiplos estudos confirmam a realidade percecionada de que muitas mulheres acumulam o emprego com várias outras atividades, designadamente as relacionadas com o cuidado de familiares. Assim, têm menos tempo para elas do que o que dispõe a maioria dos homens. Assim, é de se esperar que mulheres nessa situação tenham dificuldade em desfrutar ocasiões para irem a um lugar agradável, como um parque ou espaço à beira-mar, apenas com intenção de lazer envolvendo uma caminhada ou uma corrida.

[8,

Importa então ter em conta alguns pontos ao projetar cidades saudáveis ​​para caminhadas pensadas em modo inclusivo, especificamente a considerar a realidade da mulher:

> Para muitas mulheres, especialmente em contexto de vida familiar, as deslocações são multifuncionais, complexas; tudo é mais difícil se os recursos económicos são escassos. Caminhar pode ser o meio necessário de mobilidade de mulheres cuja vida diária é restrita ao território da vizinhança ou se esse percurso é o necessário para as deslocações diárias.

 > Esta diversidade na mobilidade pode ser vista como uma oportunidade para facilitar agradáveis ​​caminhadas curtas e até para desenvolver o desejo de caminhar mais. Nesse sentido há que intervir para instalar atratividade em territórios de caminhada funcional.

Muitas mulheres caminham mais do que os homens no dia a dia. Mesmo que não tenham vagar para se dedicarem a atividades recreativas, podem beneficiar se esse utilitário trajeto diário puder passar a ter atratividade que induz o lazer.

Assim, planear percursos de caminhada funcionais é ótimo modo para introduzir uma caminhada mais agradável na vida quotidiana da mulher e, ao mesmo tempo, da comunidade em geral.

Muitas mães acompanham os filhos no percurso para a escola e preferirão escolher percurso que seja o mais agradável possível, desde que esteja próximo e de fácil acesso.

Planear a melhor caminhabilidade nos acessos e em volta da escola é extraordinariamente valioso e pode ter grande impacto na comunidade.

Os tempos estão a mudar. As gerações mais jovens cresceram na cultura do corpo em boa forma e farão esforço extra para acomodar as oportunidades de atividade física. Recém-mamãs, tal como muitas grávidas, são frequentemente propensas para se afastarem dos ginásios, mas isso não significa que tenham perdido o interesse pela atividade física.

Caminhar ao ar livre pode ser uma ótima alternativa ao tempo no ginásio, portanto, há que planear tendo em conta essa realidade. Importa favorecer essa possibilidade. Em alguns países é, aliás, frequente que mães recentes integrem grupos de caminhada no seu bairro. Acolha-se essa propensão.

Em especial nos países do sul da Europa, as noites tendem a ser bastante quentes durante grande parte do ano.

Há que planear enquadramentos que favoreçam passeios noturnos na vizinhança durante o verão. Isso pode até ser um grande alívio para as pessoas cujas casas ficam muito quentes no tempo de verão.

[vídeo Sónia]

5. Mapear a comunidade

Mapear os vários tipos de caminhadas que as pessoas fazem no dia a dia no seu território é uma técnica que se revela de grande utilidade. Ideal é que esse mapeamento seja feito como atividade de grupo, para se ter uma visão global que representa os padrões de mobilidade mais frequentes no bairro.

É natural que as pessoas precisam de ser incentivadas ao longo do processo para que tragam à tona a memória todas os percursos e atividades que realizam regularmente.

Este exercício ajuda a identificar as áreas mais frequentemente usadas naquele território. A partir do mapa anotado, verificar o que importa melhorar tendo em conta os requisitos de mobilidade. Também fica conseguida uma ferramenta para identificar as necessidades de grupos específicos.

Por exemplo, o Collectiu Punt 6 mostra como essa técnica funciona bem no processo de identificação dos locais mais apropriados para instalar bancos que apoiem pessoas mais velhas, possibilitando-lhes u pausa para descansar no decurso de caminhadas no território. Este grupo de urbanismo feminista catalão observa como o posicionamento inteligente desses bancos aumenta as oportunidades para as mulheres mais velhas terem mais mobilidade e poderem mover-se mais pelo bairro.

Ao combinar o mapeamento do território com caminhadas pelos diferentes locais, as propostas de intervenção urbana podem ser melhor analisadas e testadas em cenário real. O Collectiu Punt 6 refere que este processo ajudou muito a identificar com precisão a localização adequada dos bancos da rua, tendo em conta as distâncias, a sombra das árvores, e até a atmosfera sonora envolvente de modo a favorecer conversas, designadamente entre pessoas com alguma redução na capacidade auditiva.

6. Mapas de jornada - mapas de percurso para um “serviço presente na cidade/bairro”

Qual é o percurso que segue para chegar ao mercado? Ou à estação de correios? Ou ao Centro de Saúde?

Conseguir fazer esse mapeamento proporciona a visualização sequencial que dá, de forma muito detalhada e vívida, todos os detalhes que cada percurso contém.

Mapas assim, conhecidos como “mapas de jornada” são usados para ajudar a projetar e redesenhar todo o tipo de deslocações/mobilidade, seja visitas a lojas, experiências turísticas ou o percurso do utilizador na navegação por uma app para o smartphone.

Estes “mapas de jornada” são ferramenta muito útil para identificar particularidades do percurso em relação às necessidades dos vários utilizadores. Pensemos, por um lado, na rota usada por uma mãe a conduzir um carrinho de bebé com paragem em várias lojas, e, por outro lado, essa mesma rota usada por um adulto, sem qualquer constrangimento, a caminho do trabalho.

7. Atividade física - a cidade é o meu ginásio

A pandemia Covid-19 mudou hábitos de caminhada de muitas pessoas. Durante o confinamento inicial (primavera de 2020) muitas pessoas começaram a cultivar passeios de lazer em volta de casa. Para muita gente foi um momento relaxante, outros viram nisso a oportunidade para praticar alguma atividade física, principalmente porque as instalações desportivas estavam fechadas. Estudos mais recentes, tal como o inquérito que promovemos, também mostram que esses novos hábitos tendem a persistir, e muitas pessoas continuam a cultivar passeios de lazer com mais frequência do que antes da Covid.

É natural que se instale um efeito coletivo de assumir o bairro como lugar aprazível e próximo para caminhadas ou corridas ao ar livre e, como tal, cresce a moda de o usar em alternativa sem custos ao ginásio.

Faça o planeamento considerando essa nova realidade, talvez acrescentando nesse território equipamentos urbanos para atrair mais pessoas à atividade física na rua. Uma vez que as ruas ganham mais pessoas a praticar atividade física, fica favorecida a atração de outras pessoas que se sentirão mais motivadas. É o bom contágio. Importa promover boa comunicação dessa novidade no bairro.

8. Transformar para tornar agradável e saudável: o caso de áreas verdes e azuis

É indiscutível o valor dos espaços verdes para a qualidade do espaço público, pelo bem-estar e benefícios para a saúde que nos trazem. Contudo, estas áreas privilegiadas para andarmos a pé nem sempre estão disponíveis nos bairros nem nos percursos de deslocação funcional de muitas pessoas. 

Tanto o inquérito ZEBRA “Caminho como respiro”, dirigido à população de Lisboa, como as entrevistas realizadas a organizações norueguesas no âmbito deste co-Lab evidenciam a importância da proximidade a estes espaços verdes. É a partir do seu bairro, da sua porta de casa, que a pessoas caminham. No caso português é mais clara a diferenciação entre homens e mulheres quanto ao tempo disponível para caminhar em lazer, tornando-se a distância ainda mais relevante por isso.

  • As caminhadas que se fazem a partir do próprio bairro são muito importantes como parte integrante da prática de atividade física regular.
  • Sugerimos o investimento ao nível do bairro de incentivos para promover a caminhada:
    • Criação de rotas e sinalética informativa;
    • Incluir na identificação de rotas oportunidades para uso/atravessamento de espaços naturais;
    • Promoção de grupos de caminhada no bairro (por exemplo, pelo Facebook)
    • “Gamificação” de rotas para caminhada no bairro

Deixamos também algumas pistas para tornar o seu acesso mais facilitado e equitativo:

Investir na criação de zonas verdes nos bairros e não apostar apenas em grandes parques para a cidade em geral, que obrigam a deslocações grandes para muitos.

Criar zonas verdes também pode
incentivar as pessoas a serem mais ativas fisicamente. “O que é interessante é
que os benefícios psicológicos positivos do contacto com a natureza e da
atividade física costumam apoiar-se mutuamente: para visitar a natureza, as
pessoas geralmente precisam de se mover (por exemplo, caminhar num parque,
caminhar numa floresta, etc.) e quando as pessoas se movem na natureza eles
sentem-se bem, então eles vão querer fazer isso de novo, e de novo…”
(Giovanna Calogliuri, investigadora especialista nos benefícios do exercício
verde/azul e membro do co-Lab).

Investir em corredores verdes em áreas estratégicas para os deslocamentos de rotina nos bairros

Facilitar o acesso, convidar as pessoas a entrar:

– Para muitas pessoas, entrar num parque não é um hábito instalado. Esta barreira pode ser menorizada através de soluções simples de desenho urbano para criar continuidades entre estes espaços e a rua.

 – Importa ainda realizar auditorias de segurança e de perceção de risco com diferentes grupos de mulheres para compreender que barreiras é preciso eliminar

Criar uma “segunda pele” de reforço de zonas de tranquilidade, para ampliar o seu alcance no bairro (ver proposta   vídeo – da especialista em intervenções urbanas Sónia Lavadinho)

Equipar para a diversidade de usos e de pessoas, incluindo a atividade física.

Placemaking dedicado aos espaços verdes

9. Facilitar a transformação: instalar o novo modelo no dia a dia das pessoas

Consideremos os diferentes usos do território para caminhar: caminhada funcional – ou seja, ir para o trabalho, ir à escola, cuidar das atividades de outros, fazer compras diárias, etc., caminhar em modo de lazer – passear, fazer exercício físico, e a caminhada relacional, social, que dá prioridade ao estar com outras pessoas.

Uma cidade saudável e que pode ser percorrida a pé facilita e incentiva a todos os seus cidadãos para que explorem oportunidades de caminhadas agradáveis, fáceis e seguras mesmo durantes os deslocamentos funcionais. Esta é uma visão relativamente nova para as cidades. Veremos, sem dúvida, nos próximos anos inúmeros consistentes e importantes esforços nesse sentido.

Trazer esta visão para a escala do bairro é a melhor forma de vencer o problema de falta de tempo que afeta grande parte da população ativa e em especial mulheres que acumulam funções cuidadoras.

Quando as cidades são atrativas para caminhadas, as pessoas caminham mais. Geralmente, fazem isso juntando um pouco de caminhada à deslocação necessária, reduzindo assim o tempo em transportes públicos ou no automóvel.  Onde é que aqui entra a especificidade de género? Este é um factor a considerar: o que pode parecer um percurso de caminhada atraente para alguns, pode, no entanto, apresentar barreiras para outros, designadamente mulheres. É, frequentemente, por exemplo, o caso de percursos que atravessam uma área verde urbana com um ou mais pontos de baixa visibilidade, que muitas mulheres podem percecionar como zonas de risco.

Há que promover auditorias de segurança em caminhos aparentemente agradáveis ​​para eliminar obstáculos à mobilidade confiante.

10. Tempo para caminhar

Neste manual, pretendemos destacar os fatores de mobilidade que tendem a estar associados às desigualdades de género.

O primeiro e mais destacado é o acesso aos tempos de lazer / recreio para andar a pé.

Múltiplos estudos confirmam a realidade percecionada de que muitas mulheres acumulam o emprego com várias outras atividades, designadamente as relacionadas com o cuidado de familiares. Assim, têm menos tempo para elas do que o que dispõe a maioria dos homens. Assim, é de se esperar que mulheres nessa situação tenham dificuldade em desfrutar ocasiões para irem a um lugar agradável, como um parque ou espaço à beira-mar, apenas com intenção de lazer envolvendo uma caminhada ou uma corrida.

in Espacios para la vida cotidiana. Auditoria de calid urbana com perspectiva de género (Col-lectiu Punt 6)

Fonte: http://www.punt6.org/wp-content/uploads/2016/08/EspaciosParalaVidaCotidiana.pdf

Importa então ter em conta alguns pontos ao projetar cidades saudáveis para caminhadas pensadas em modo inclusivo, especificamente a considerar a realidade da mulher:

> Para muitas mulheres, especialmente em contexto de vida familiar, as deslocações são multifuncionais, complexas; tudo é mais difícil se os recursos económicos são escassos. Caminhar pode ser o meio necessário de mobilidade de mulheres cuja vida diária é restrita ao território da vizinhança ou se esse percurso é o necessário para as deslocações diárias.

 > Esta diversidade na mobilidade pode ser vista como uma oportunidade para facilitar agradáveis caminhadas curtas e até para desenvolver o desejo de caminhar mais. Nesse sentido há que intervir para instalar atratividade em territórios de caminhada funcional.

Muitas mulheres caminham mais do que os homens no dia a dia. Mesmo que não tenham vagar para se dedicarem a atividades recreativas, podem beneficiar se esse utilitário trajeto diário puder passar a ter atratividade que induz o lazer.

Assim, planear percursos de caminhada funcionais é ótimo modo para introduzir uma caminhada mais agradável na vida quotidiana da mulher e, ao mesmo tempo, da comunidade em geral.

Muitas mães acompanham os filhos no percurso para a escola e preferirão escolher percurso que seja o mais agradável possível, desde que esteja próximo e de fácil acesso.

Planear a melhor caminhabilidade nos acessos e em volta da escola é extraordinariamente valioso e pode ter grande impacto na comunidade.

Os tempos estão a mudar. As gerações mais jovens cresceram na cultura do corpo em boa forma e farão esforço extra para acomodar as oportunidades de atividade física. Recém-mamãs, tal como muitas grávidas, são frequentemente propensas para se afastarem dos ginásios, mas isso não significa que tenham perdido o interesse pela atividade física.

Caminhar ao ar livre pode ser uma ótima alternativa ao tempo no ginásio, portanto, há que planear tendo em conta essa realidade. Importa favorecer essa possibilidade. Em alguns países é, aliás, frequente que mães recentes integrem grupos de caminhada no seu bairro. Acolha-se essa propensão.

Em especial nos países do sul da Europa, as noites tendem a ser bastante quentes durante grande parte do ano.

Há que planear enquadramentos que favoreçam passeios noturnos na vizinhança durante o verão. Isso pode até ser um grande alívio para as pessoas cujas casas ficam muito quentes no tempo de verão.

O primeiro e mais destacado é o acesso aos tempos de lazer / recreio para andar a pé.

Múltiplos estudos confirmam a realidade percecionada de que muitas mulheres acumulam o emprego com várias outras atividades, designadamente as relacionadas com o cuidado de familiares. Assim, têm menos tempo para elas do que o que dispõe a maioria dos homens. Assim, é de se esperar que mulheres nessa situação tenham dificuldade em desfrutar ocasiões para irem a um lugar agradável, como um parque ou espaço à beira-mar, apenas com intenção de lazer envolvendo uma caminhada ou uma corrida.

11 - Atividade física - a cidade é o meu ginásio

A pandemia Covid-19 mudou hábitos de caminhada de muitas pessoas. Durante o confinamento inicial (primavera de 2020) muitas pessoas começaram a cultivar passeios de lazer em volta de casa. Para muita gente foi um momento relaxante, outros viram nisso a oportunidade para praticar alguma atividade física, principalmente porque as instalações desportivas estavam fechadas. Estudos mais recentes, tal como o inquérito que promovemos, também mostram que esses novos hábitos tendem a persistir, e muitas pessoas continuam a cultivar passeios de lazer com mais frequência do que antes da Covid.

É natural que se instale um efeito coletivo de assumir o bairro como lugar aprazível e próximo para caminhadas ou corridas ao ar livre e, como tal, cresce a moda de o usar em alternativa sem custos ao ginásio.

Faça o planeamento considerando essa nova realidade, talvez acrescentando nesse território equipamentos urbanos para atrair mais pessoas à atividade física na rua. Uma vez que as ruas ganham mais pessoas a praticar atividade física, fica favorecida a atração de outras pessoas que se sentirão mais motivadas. É o bom contágio. Importa promover boa comunicação dessa novidade no bairro.

12 - Transformar para tornar agradável e saudável: o caso de áreas verdes e azuis

É indiscutível o valor dos espaços verdes para a qualidade do espaço público, pelo bem-estar e benefícios para a saúde que nos trazem. Contudo, estas áreas privilegiadas para andarmos a pé nem sempre estão disponíveis nos bairros nem nos percursos de deslocação funcional de muitas pessoas.

Tanto o inquérito ZEBRA “Caminho como respiro”, dirigido à população de Lisboa, como as entrevistas realizadas a organizações norueguesas no âmbito deste co-Lab evidenciam a importância da proximidade a estes espaços verdes. É a partir do seu bairro, da sua porta de casa, que a pessoas caminham. No caso português é mais clara a diferenciação entre homens e mulheres quanto ao tempo disponível para caminhar em lazer, tornando-se a distância ainda mais relevante por isso.

As caminhadas que se fazem a partir do próprio bairro são muito importantes como parte integrante da prática de atividade física regular.

Sugerimos o investimento ao nível do bairro de incentivos para promover a caminhada:

    • Criação de rotas e sinalética informativa;
    • Incluir na identificação de rotas oportunidades para uso/atravessamento de espaços naturais;
    • Promoção de grupos de caminhada no bairro (por exemplo, pelo Facebook)
    • “Gamificação” de rotas para caminhada no bairro

Deixamos também algumas pistas para tornar o seu acesso mais facilitado e equitativo:

Investir na criação de zonas verdes nos bairros e não apostar apenas em grandes parques para a cidade em geral, que obrigam a deslocações grandes para muitos.

Criar zonas verdes também pode incentivar as pessoas a serem mais ativas fisicamente. “O que é interessante é que os benefícios psicológicos positivos do contacto com a natureza e da atividade física costumam apoiar-se mutuamente: para visitar a natureza, as pessoas geralmente precisam de se mover (por exemplo, caminhar num parque, caminhar numa floresta, etc.) e quando as pessoas se movem na natureza eles sentem-se bem, então eles vão querer fazer isso de novo, e de novo…” (Giovanna Calogliuri, investigadora especialista nos benefícios do exercício verde/azul e membro do co-Lab).

Investir em corredores verdes em áreas estratégicas para os deslocamentos de rotina nos bairros

Facilitar o acesso, convidar as pessoas a entrar:

– Para muitas pessoas, entrar num parque não é um hábito instalado. Esta barreira pode ser menorizada através de soluções simples de desenho urbano para criar continuidades entre estes espaços e a rua.

     – Importa ainda realizar auditorias de segurança e de perceção de risco com diferentes grupos de mulheres para compreender que barreiras é preciso eliminar

Criar uma “segunda pele” de reforço de zonas de tranquilidade, para ampliar o seu alcance no bairro (ver proposta vídeo – da especialista em intervenções urbanas Sónia Lavadinho)

Equipar para a diversidade de usos e de pessoas, incluindo a atividade física.

Placemaking dedicado aos espaços verdes

É importante que os espaços verdes e ambientes naturais sejam seguros e acessíveis às pessoas. Se um parque ou floresta for percecionado como inseguro, seja por causa do risco real de ocorrência de crimes ou porque “parece” inseguro (iluminação insuficiente, manutenção deficiente de recursos, etiquetas e lixo, etc.), este é um dos factores que afasta as pessoas.

Barreiras físicas também são uma questão central:

– Podemos ter um belo parque perto de casa, mas se tiver uma rua com muito trânsito a separar-me dele, será menos provável frequentar esse parque

– A falta de caminhos bem assinalados e bem mantidos, a falta de bancos e pontos de água, também atuam como barreira para idosos ou pessoas com mobilidade reduzida.

– Barreiras culturais também podem influenciar a extensão com que as pessoas usam os espaços verdes e ambientes naturais: nos países nórdicos, por exemplo, atividades recreativas ao ar livre e exercício verdes são geralmente vistos como uma tradição e um valor. Acredita-se que as pessoas o façam durante os feriados e fins de semana, juntamente com crianças, e é comum as mulheres participarem nessas atividades sozinhas. O resultado é que 60% dos noruegueses fazem alguma forma de exercício verde todas as semanas, sem grandes diferenças entre homens e mulheres.

A boa notícia é que não precisamos de grandes parques para desencadear esse processo: avistar a natureza nos nossos bairros (por exemplo, canteiros de flores ou árvores nas ruas, avistar rios / lago / mar, etc.) também podem incentivar as pessoas para serem mais ativas. Se por um lado é um facto que as cidades não têm espaço para construir grandes parques dentro delas, podem, no entanto, integrar mais natureza na natureza.

 

ENTREVISTA GIOVANNA CALOGIURI         

ENTREVISTAS COM OS NORUEGUESES     

INTERVIEW

Patrícia Santos Pedrosa- Portuguese Architect, president of the NGO Mulheres na Arquitectura (“Women in Architecture”)

As cidades estão pouco preparadas para as mulheres: a cidade é desenhada por e para homens. A desigualdade sai pela porta fora da casa das mulheres. Uma experiência ocidental, não só em Portugal  aliás, basta alguém ter de andar pela cidade com um carrinho de compras ou de muletas para ter logo este choque com a realidade. São os homens que estão nos cargos de decisão, o que torna a voz feminina no processo do desenho urbanístico quase nula.

Isto reflete-se na insegurança que as mulheres sentem quando andam na cidade  há uma série de sítios onde os pavimentos já estão a mudar, a ficar mais seguros; mas até nisto a experiência de uma cidade é desigual. Nos transportes, também. Está provado, em estudos internacionais, que são as mulheres quem mais frequenta os transportes públicos. A cidade foi construída sobre uma base rodoviária, mas grande parte das mulheres não anda de carro, anda de transportes. E pessoas que usam transportes públicos andam mais a pé do que aquelas que se transportam de carro. Mas nem os transportes apresentam condições: não estão feitos para as muitas mulheres que, por exemplo, entram ao trabalho nas empresas quando todos vão para casa, para limpar os escritórios e sair já de madrugada. Já nos perguntamos como é que estas mulheres regressam a casa? Se têm transportes e quantos têm de apanhar para lá chegar. Muitas delas, a morar no grande anel periférico da cidade.

Não sei se há muitas pessoas com esta consciência, mas há mulheres que abdicam de cuidar de si pelo incómodo de se dirigirem a determinados espaços da cidade  ou por estão longe, ou porque os acessos estão dificultados.

Project Co-Lab Walk my city free is a EEA Grants co-financed project initiated in 2020.

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