Capítulo II

O que nos dá uma cidade caminhável

1 . Pela saúde – física e mental

Cidades caminháveis são cidades felizes e com cidadãos felizes. Já são há muito conhecidos os benefícios de uma caminhada no corpo do ser humano: ajuda a manter um peso saudável; tonifica os quadríceps, isquiotibiais, glúteos, pernas e até a parte superior do corpo; previne o risco de vir a ter cancro; melhora a saúde do coração; aumenta a ingestão de vitamina D para manter os ossos, dentes e músculos saudáveis; e, de acordo com o Public Health England (PHE), reduz o risco de morte prematura em 15%. Mas não só. Corpo são, mente sã é um lema que a caminhada leva muito a sério.

Raúl Antunes, professor da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria e um dos convidados do ciclo de conversas da ZEBRA “Cidade que Abraça”, lembrou que “pessoas que relataram mais atividade física ao ar livre durante o confinamento também relataram níveis mais baixos de ansiedade ”. “Caminhar desempenhou um grande papel e teve uma correlação positiva com os resultados gerais para mais atividade física. Os idosos andaram mais, talvez pela presença de mais gente nas ruas e pela sensação de segurança”, contou.

Uma opinião que reúne consenso entre os especialistas. Não há dúvidas de que andar a pé é “muito importante para a nossa saúde mental”, mas Filipa Matos Wunderlich explica quais os efeitos positivos de o praticar regularmente. Arquiteta e desenhadora urbana, diretora do Mestrado em Design Urbano Interdisciplinar, na Bartlett School of Planning, em Londres, foi também uma das convidadas nas conversas ZEBRA e o seu testemunho permitiu-nos saber que “caminhar regularmente num caminho escolhido e desejado pode ser uma fonte de felicidade momentânea”.

“Isto tem a ver com a expressividade da ritmicidade do caminhar, associada aos acontecimentos, surpresas e novidades que a cidade traz. Podemos falar aqui de experiências ideais. Está ligado ao prazer corporal e relaxamento mental. Isto acontece quando o caminhante sente um bom fluxo na caminhada.” É exatamente por isso que defende que “devemos investir na conceção de oportunidades para boas caminhadas, com um bom fluxo, que libertem um estado emocional positivo (sensações corporais positivas e relaxamento mental) e que pode ser positivo para a saúde mental das pessoas”. “Principalmente nas cidades cosmopolitas, devemos começar a abordar as oportunidades de facilitar espaços para este tipo de efeito de caminhada. O importante não é o que os lugares têm, mas o que acontece lá.”

A quilómetros de distância, Giovanna Calogiuri, professora in Health Sciences at the Science Center for Health and Technology ate the University of South-Eastern Norway, estudou ainda a importância que tem caminhar junto da natureza, em espaços verdes ou com água (rio ou mar) por perto. Em declarações à ZEBRA, a especialista conta que “na última década, cada vez mais estudos mostram que o exercício em zonas verdes é bom para nós de várias maneiras”. Porque “o contacto com a natureza pode ajudar-nos a relaxar e a sentirmo-nos bem” e “existem muitas teorias e explicações para a razão de isto acontecer”: “alguns dizem que as emoções que sentimos quando estamos em contacto com a natureza fazem parte dos mecanismos de sobrevivência desenvolvidos desde milhares de anos durante os quais florestas e savanas foram nossos ambientes naturais – afinal, começamos a viver em cidades há relativamente pouco tempo! ”; “outras teorias afirmam que elementos da natureza, como árvores, vistas da água e as nuvens no céu, possuem características típicas (formas, cores, sons, cheiros) com efeitos calmantes/relaxants”. Ainda que, também, “perspectivas mais recentes têm proposto que o contacto com a natureza pode aumentar os nossos sentimentos de conexão com o mundo natural, dando-nos sentido à vida, ou que simplesmente associamos a natureza a memórias e experiências positivas”.

Independentemente do motivo, diz ela, há um grande corpo de evidências que mostra que estar em contato com a natureza pode melhorar o humor e a saúde mental das pessoas. Uma missão difícil em zonas urbanas, mas mais importante aqui também, devido às ruas sobrelotadas, uma sensação de insegurança e a elevada poluição. Giovanna Calogiuri diz que criar zonas verdes também pode incentivar as pessoas a serem mais ativas fisicamente. “O que é interessante é que os benefícios psicológicos positivos do contacto com a natureza e da atividade física costumam apoiar-se mutuamente: para visitar a natureza, as pessoas geralmente precisam de se mover (por exemplo, caminhar num parque, caminhar numa floresta, etc.) e quando as pessoas se movem na natureza eles sentem-se bem, então eles vão querer fazer isso de novo, e de novo…”

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2. Pela socialização

O inquérito ZEBRA mostrou que caminhar ainda é um ato muito solitário, propositadamente ou não. Há quem veja o andar a pé como uma oportunidade de autoreflexão, para cuidar da sua saúde mental. Mas raramente os cidadãos vee misto como uma oportunidade de conhecer mais e novas pessoas. No entanto, este é o diamante em bruto que o prazer de andar a pé tem para oferecer, ainda pouco explorado em Portugal, por exemplo.

A arquiteta e urbanista Filipa Matos Wunderlich explica que “caminhar é essencial para que as pessoas sintam a sua humanidade”. “Precisamos de caminhar para nos sentirmos humanos, para percebermos melhor o tempo e onde pertencemos”, por isso “o caminhar urbano é repleto de sociabilidade: através dele é que nos expressamos, comunicamos com os outros”. Uma sensação que se adensou com uma pandemia e os consequentes confinamentos, depois de afastados da comunidade. “Durante o confinamento devido à covid-19, sentimos a vontade de sair e caminhar? Porquê? Porque precisamos, precisamos de ver as pessoas, precisamos de pertencer à comunidade. ”

Com morada em Genebra, apesar da nacionalidade Portuguesa, Sónia Lavadinho falou à ZEBRA sobre o papel que as políticas locais têm na promoção da socialização através da caminhada pela cidade. A experiência que acumula na área fala por si. É geógrafa, com formação também em sociologia e antropologia urbana, participou no masterplan para a pedonalização da capital francesa, desenhou o plano “Ciudad amigable” para ampliar a caminhabilidade de Buenos Aires e participou noutras estratégias de transformação urbana pela mobilidade a pé para diversas cidades europeias. Em 2012, criou a BFLUID, um gabinete de prospetiva em mobilidade e desenvolvimento do território. Os anos que leva ao comando das questões da mobilidade permitem-lhe dizer que “é dever do planeador e do político local projetar a cidade relacional, que facilite encontros para caminhadas, sejam grupos, casais, amigos ou famílias”. Segundo Sónia Lavadinho, “precisam de dar prioridade ao tempo e ao espaço para caminhar. Quando as pessoas caminham juntas, elas combinam com seu ritmo de caminhada, há um tipo diferente de interação entre as pessoas”.

3. Pela relação com a cidade

Não apenas a necessidade de áreas verdes ou as oportunidades de socialização são importantes para os cidadãos. Se covid-19 nos mostrou algo, foi que “as dinâmicas de hiperproximidade são muito importantes para as pessoas”. Assim conclui Sónia Lavadinho, que explica como a pandemia “ajudou as pessoas a avaliar a qualidade do seu bairro para caminhar”, passando a vê-lo de uma forma não apenas funcional, mas também de uma forma relacional. “Muitas pessoas, que usavam seu bairro apenas para caminhadas funcionais, passaram a usar seu bairro também para caminhadas de lazer. E, para algumas pessoas, pela primeira vez na vida, eles estavam a andar na sua vizinhança com os seus familiares e amigos. As pessoas exigem uma cidade relacional, não apenas uma cidade funcional.

De acordo com Sónia Lavadinho, as cidades relacionais medem-se pela quantidade e qualidade dos parques e praças, por exemplo, que disponibilizam à comunidade. Mas, atualmente, as cidades estão longe de cumprir a sua meta relacional. “Normalmente as cidades têm 10% de seu espaço público dedicado a atividades sociais (cidade relacional). Idealmente, isto deve ser aumentado para, no mínimo, 30-40%. Todas as cidades estão muito aquém desta meta.”

Construir uma cidade relacional não só permite dar mais qualidade de vida aos cidadãos, como um vínculo com os mesmos. Falamos do “mapa mental”, como explica a geógrafa. “Caminhar ajuda a construir um mapa mental da cidade. A forma de conhecer uma cidade está ligada a passear pela cidade. Ao caminhar, estabelecemos novas vias neuronais. Se tu conheces a cidade apenas de metro, obtens um mapa mental fragmentado da cidade, feito dos poucos pedaços que vês na superfície ao sair. Não serás capaz de te orientar na cidade, não tens um mapa mental funcional.

A especialista Filipa Matos Wunderlich não só concorda como vai mais longe e conta que “através do nosso caminhar, desenvolvemos consciente ou inconscientemente a nossa própria história biográfica na cidade”. O que pode ser “importante para a nossa saúde mental”, porque “ajuda-nos a definir quem somos, onde estamos, a que lugar pertencemos” e ajuda-nos a “desenvolver a nossa identidade social – a que lugar pertencemos na cidade, que espaço urbano é que chamo de meu, qual o meu bairro”.

Além disso, caminhar pode melhorar a maneira como reagimos aos principais problemas mundiais, como as mudanças climáticas. Porque “temos mais de 30 sentidos, e quando andamos muitos deles estão mais activos”, como a percepção da temperatura. “Isto é cada vez mais importante face às alterações climáticas”, afirma Sónia Lavadinho.

Project Co-Lab Walk my city free is a EEA Grants co-financed project initiated in 2020.

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